quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O coração é capaz de parar de bater e assim permanecer por mais vivo que se esteja. Quando digo vivo digo do andar, da voz, de seu corpo, em si, ainda mover-se. Mas essa vida pode nada ser. O indivíduo só está vivo quando se permite ter planos, fazê-los e por mais que não os realize sonhe com eles. Em um determinado momento, muitos param de sonhar, caminham e só. Caminhar não basta, e por mais que talvez tonifique pernas, os exercícios não elevam o que há dentro de cada olhar. Acalma, limpa e desintoxica, mais nada.
A alma permanece num vão sem lugar pra sê-la. Por mais inconstante que passe a se tornar ao exprimir-se nos cantos das salas de jantares e banheiros de bares, ela permanece estaticamente nula. Não é um vazio, o vazio não existe, é apenas a impressão que o não movimentar-se interno causa aos inquietos.
Acostumados ao caos, interno e externo, a calmaria acumula toxinas que se transformam em alucinações. Para alguns, que com o tempo aprendem a administrá-las, acaba por serem benignas. O que antes parecia mal passa a ser modificado de tal maneira pelo próprio dono da alma estática que o acaba elevando. Ver o mundo com outros olhos, diria. O ser por si deve aprender a chacoalhar o estático. Quebrar o silêncio que por muitas o levou ao desespero. Aqueles incapazes se tornam mais e mais sós, perdidos e toda uma estrutura passa a ser abalada.
Os incapazes de criar essa movimentação dentro deles mesmos criam um mundo paralelo que se manifesta na loucura, tristeza e um permanente não querer da vida. De qualquer modo, encontram-se em um patamar acima, viram com seus próprios olhos o que lhes manchou a face. E mesmo que muitos, ao se verem de tal forma tentem fechar esse contato interno, bem ou mal já subiram mil degraus e não há volta. Chama-se de tentar calar a alma que com o seu tempo estático está de alguma forma a tentar metamorfosear-se. É ignorante, assim por dizer, já que por conta do medo (geralmente) o ser tenta não ser.

Mais temperado

Já fui metade de uma laranja, mas hoje sou metade inteira. Sou mais que ontem e gosto do gosto que essa liberdade de mim mesma tem. Gosto do gosto que as coisas têm, o sal da piscina, o sal do mar, o doce que me é amargo. Gosto da pimenta que me queima a boca. Sinceramente? Gosto dos venenos! Esse negócio louco de pureza foi-se há tempos, a gente sabe que as segundas e terceiras intenções são levemente, na verdade fortemente mais temperadas.
Eu gosto do abraço apertado sim, eu gosto. Do carinho chamego, sim meu bem. Mas também gosto das loucuras que meus lençóis escondem até de mim.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

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mãos e pés
cabeças ao vento
ondas que vem e vão
turbilhão de pensamentos
crescendo, crescento, chegando ao alto
as palavras ficam ainda maiores, pintadas de anil
as frases se espalham sem medo de dor
e se recolhem novamente
elas dormem mais um dia
acordam pra quem lia
cabeças ao vento
mãos e pés

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um coração aberto
não fecha nem um segundo
bate, bate pequenino e grande
soprando ventos ao mundo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

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Falta ar, assim como falta quem lhe confie uma palavra só. A verdade. Como lhe falta um sopro de vida de quem cabe, olhar afugentado de quem vale.
Falta ar como escolas que ensinem a voar, não sei voar.
Falta lugar plano pra pousar. Falta confiança pra se lançar. Falta um mundo e tudo.
Faltam mãos que te peguem no escuro sem exitar, falta respiração que não pode parar, falta vida, falta morte, ainda falta tanto.
e mesmo em tanta falta d'água, cor, coragem, um fio ínfimo tenta dar conta d'alma. Mas onde uma só alma não pode fazer serviços, não pode erguer o mundo, respira meia dela. Que ainda sobrevive, brava, valente e acreditada numa meia verdade vã.
Mesmo que o começo de um desengano, mesmo que em véus a desfalecer, garras e entranhas vão aparecendo, segurando uma verdade que não quer vencer.

Coração

Bate quieto e até então sereno
mais eis que outra vez se desfez
cansado, calado, engolido
sorte, sorte se fez

pois diria que infeliz sorte
amor desprovido de veracidade
até que seja verdade
ainda bate feito a morte
outra vez, outra vez

sei que de mim mais sincero
e já desfiz da privacidade
dôo calada e não altero
silêncio além da realidade

prosa, teatro, poesia
que nada retratam
minha sinceridade desvia, esguia e vazia
medo da verdade relatam

sábado, 17 de outubro de 2009

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Noites que vem e vão e o tempo não para de correr, são noites desprendidas de memórias que se possam viver. Disseram que é preciso esquecer pra lembrar, mas e se o silencio fizer apenas com que não se recorde? Uma paz de não pensamentos que te levam a desejos e consequentemente te elevam a uma possível nostalgia irritantemente inconveniente? Creio eu que não. Acredito fielmente que as memórias nos fazem ver e crer o que já não se pode viver, mas é bem dito também que às vezes elas irriquietam.
Quem sabe o impossível não se faz concreto, em meio às madrugadas mal dormidas e ansiosas, que anseiam mais que nada uma liberdade talvez vã. Essa falta de saber o que é e o que não é vão, essas batidas na porta da frente, a campainha interna, alerta. Se faltas membro, se faltas ar, liberdade é pouco ao que se quer falar, desconhece-se tudo então. Incógnitas voando por todos os lados gritam repetidas vezes as suas próprias respostas. Mas o olho nu não vê e não há lentes no quarto.
A televisão queimada, o livro rasgado, o chão inundado e o teto caindo. Começo, meio e fim da história sem limites.