segunda-feira, 19 de outubro de 2009

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Falta ar, assim como falta quem lhe confie uma palavra só. A verdade. Como lhe falta um sopro de vida de quem cabe, olhar afugentado de quem vale.
Falta ar como escolas que ensinem a voar, não sei voar.
Falta lugar plano pra pousar. Falta confiança pra se lançar. Falta um mundo e tudo.
Faltam mãos que te peguem no escuro sem exitar, falta respiração que não pode parar, falta vida, falta morte, ainda falta tanto.
e mesmo em tanta falta d'água, cor, coragem, um fio ínfimo tenta dar conta d'alma. Mas onde uma só alma não pode fazer serviços, não pode erguer o mundo, respira meia dela. Que ainda sobrevive, brava, valente e acreditada numa meia verdade vã.
Mesmo que o começo de um desengano, mesmo que em véus a desfalecer, garras e entranhas vão aparecendo, segurando uma verdade que não quer vencer.

Coração

Bate quieto e até então sereno
mais eis que outra vez se desfez
cansado, calado, engolido
sorte, sorte se fez

pois diria que infeliz sorte
amor desprovido de veracidade
até que seja verdade
ainda bate feito a morte
outra vez, outra vez

sei que de mim mais sincero
e já desfiz da privacidade
dôo calada e não altero
silêncio além da realidade

prosa, teatro, poesia
que nada retratam
minha sinceridade desvia, esguia e vazia
medo da verdade relatam

sábado, 17 de outubro de 2009

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Noites que vem e vão e o tempo não para de correr, são noites desprendidas de memórias que se possam viver. Disseram que é preciso esquecer pra lembrar, mas e se o silencio fizer apenas com que não se recorde? Uma paz de não pensamentos que te levam a desejos e consequentemente te elevam a uma possível nostalgia irritantemente inconveniente? Creio eu que não. Acredito fielmente que as memórias nos fazem ver e crer o que já não se pode viver, mas é bem dito também que às vezes elas irriquietam.
Quem sabe o impossível não se faz concreto, em meio às madrugadas mal dormidas e ansiosas, que anseiam mais que nada uma liberdade talvez vã. Essa falta de saber o que é e o que não é vão, essas batidas na porta da frente, a campainha interna, alerta. Se faltas membro, se faltas ar, liberdade é pouco ao que se quer falar, desconhece-se tudo então. Incógnitas voando por todos os lados gritam repetidas vezes as suas próprias respostas. Mas o olho nu não vê e não há lentes no quarto.
A televisão queimada, o livro rasgado, o chão inundado e o teto caindo. Começo, meio e fim da história sem limites.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mentira

Dê uma passada geral do que é de bom gosto, um chá verde com biscoito e canela estão na mesa de cabeceira combinadas com uma nova luminária um tanto quanto esquisita e livros a espera de serem lidos. Pare de fingir que não há tempo, há tempos nada se move aqui e agora num instante de quebra de inércia os papeis velhos que foram guardados estão sendo deportados, transformados.
Alguém fingiu ser útil por tanto tempo e o tempo escorreu e a verdade esvaiu-se num ralo raro. Porém, mesmo que este alguém pareça perdido pode ser que tenha se encontrado. Um dia todos nós vamos ter que achar algo em algum lugar que nos faça encontrarmo-nos... Seja num parque, num hospital, num livro... Ou até mesmo em um asilo depois de tanto tempo de vida, aparentemente.
A busca é constante, os sentidos nos pedem sentido, e o chá com biscoitos de canela podem não ser mais verdade alguma quando anoitecer e então o ralo se abre, a cabeça sana vai junto.
Quem se importa?
Talvez eu, talvez você, no final das contas todo mundo aponta certa preocupação com os "esvair-ses" da vida, mesmo que, corriqueiramente, seja consciente o ser tão passageiro de tudo nessa estrada.
Esse vai e vem mais frequente que as ondas do mar, acabam por se confundirem com loucuras, dessas que todo mundo agradece por ter, mas quer se livrar. Das perguntas sem respostas, das escolhas sem apoio, o pensamento humano mais chavão, as clichês dúvidas guardadas e o medo cretino de ser anormal.
Ignore tudo dito então, seus pensamentos te confundirão aos dez, aos dezoito, aos trinta, aos sessenta e cinco e pedras a frente...
Uma conta de luz não paga, um telefone mudo e o silêncio nada musical podem se tornar uma sinfonia.